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  • CRP 10

Vidas alagadas, populações atingidas: a psicologia frente à crise climática

Robert Damasceno Monteiro Rodrigues*

Jureuda Duarte Guerra**

 

Segundo o boletim divulgado pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul, na manhã de ontem, 06 de maio, já somavam 83 pessoas mortas devido às enchentes, alagamentos e fortes chuvas no estado, outras 111 estão desaparecidas. Ao todo, já passam de 850 mil o número de pessoas atingidas pelos eventos climáticos. Diante deste cenário, o que cabe à psicologia? Quais são as tarefas e o papel das psicólogas e psicólogos?


Historicamente, a psicologia se constituiu como uma profissão normativa, voltada à solução dos problemas de ajustamento e conduta, reproduzindo modelos disciplinares, biomédicos e individualizantes. Na sociedade ocidental, portanto, a psicologia foi se consolidando como uma profissão empenhada na manutenção da ordem vigente, aliada aos interesses das classes dominantes.


Na América Latina, porém, é a partir dos anos 1960 que se começa a questionar o papel da psicologia, através da crítica à atuação de seus profissionais. No Brasil, os anos 80 são marcados pelos debates sobre o papel social da psicologia e, a partir da promulgação da Constituição de 1988 e, posteriormente, com a estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a psicologia adentra às políticas públicas como parte do sistema de garantia de direitos.


Atualmente, a psicologia é demandada para atuar em diferentes campos, muitos destes voltados ao atendimento de populações em situações de vulnerabilidades socioeconômicas. Uma destas áreas diz respeito á atuação da psicologia em situações de emergências e desastres. As discussões sobre essa atuação remontam ao início dos anos 2000, evoluindo da perspectiva de uma atuação remediativa para de uma atuação voltada à prevenção e gestão dos riscos associados às emergências e desastres. 


Nos últimos dias, o Brasil e o mundo têm acompanhado as consequências catastróficas das fortes chuvas, seguidas de alagamentos e enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul. As perdas humanas e materiais são incalculáveis e seus desdobramentos a médio e longo prazo ainda não podem ser mensurados. O Governo Federal tem unido esforços junto ao estado gaúcho e outros estados solidários para intervir nas situações, com equipes de resgate, ações de desobstrução e contenção das águas, fornecimento de alimentos e abrigos às pessoas desalojadas.


A ação voluntária de movimentos sociais, organizações não governamentais e profissionais das mais diversas áreas também têm sido fundamentais para garantir o atendimento às milhares de famílias atingidas pelos eventos climáticos. Neste bojo, profissionais da psicologia também tem atuado, seja impulsionando e contribuindo em diversas campanhas de solidariedade para arrecadação financeira, de alimentos e roupas, seja prestando atendimento voluntário às vítimas, de modo presencial e online.

O Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul já se posicionou reforçando a importância das(os) profissionais de psicologia se aliarem às redes municipais de apoio e se cadastraram para o atendimento voluntário pelo estado, reafirmando o dever fundamental das(os) psicólogas(os) de prestarem serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emergência, sem visar benefício pessoal, conforme estabelece o Código de Ética da Psicologia.


Entretanto, para além da indiscutível necessidade do trabalho voluntário nas situações de emergência, cabe também á psicologia refletir sobre o seu papel diante da atual crise climática no planeta. Os acontecimentos no sul do Brasil não estão dissociados das mudanças climáticas globais como consequência direta da ação humana. Olhar para este cenário de modo crítico, possibilita às(aos) psicólogas(os) não só atuarem no atendimento aos atingidos, considerando o contexto em que são produzidos, como também intervir dentro de suas possibilidades para alterar os fatores que levam a estas catástrofes.


Segundo diversos cientistas no mundo, a humanidade está vivendo uma nova era, denominada de antropoceno. Como era geológica, o antropoceno é marcado principalmente por alterações estruturais na formação biogeoquímica da terra provocadas pelos seres humanos. Desde a revolução industrial e, mais intensamente, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, os níveis de emissão de dióxido de carbono na atmosfera e o consequente aumento da temperatura global têm atingido níveis que marcam um período de transição geológica no planeta.


Nesta transição, apontam os especialistas, os seres humanos estão sendo os responsáveis pelos principais eventos que podem levar à sua própria extinção enquanto espécie. Os eventos climáticos que estamos presenciando são apenas uma amostra da força do antropoceno, visto que, um dos seus fatores, são as fortes ondas de calor na região central do Brasil, associada a uma corrente intensa de vento e um corredor de humidade a partir da Amazônia.


Em 2019, o estado de São Paulo viu o céu escurecer, após a formação de grandes nuvens de fumaça levadas desde a Amazônia provocada pelas intensas queimadas na região, principalmente pelo evento coordenado por fazendeiros conhecido como “o dia do fogo”. Todos os anos, a Amazônia e o Cerrado batem recordes de desmatamento e queimadas, lançando bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera, com o reforço da decomposição de matéria orgânica submersa nas usinas hidrelétricas e da queima de combustíveis fósseis em termelétricas e automóveis.


Este não são os únicos fatores da ação humana para o aquecimento global, mas estão entre os principais. A cada pico de temperatura, o planeta geme e populações inteiras sofrem, como o que está acontecendo com o povo gaúcho. A cada hectare de floresta desmatada e queimada, milhões de pessoas em todo o mundo são produzidas como atingidas. Somam-se a isso, os rompimentos de barragens de contenção de rejeitos minerais e para produção de energia, quando ocorrem devido à eventos climáticos associados à irresponsabilidade humana.


No Rio Grande do Sul, assim como em todos os estados brasileiros, o desmantelamento das políticas de proteção ambiental continua caminhando à passos largos. Enquanto isso, a monocultura, o latifúndio e o agronegócio ganham a cada dia mais subsídios e isenções fiscais. No congresso brasileiro, existem bancadas inteiras empenhadas em acabar com os dispositivos legais voltadas à demarcação de terras indígenas, áreas de conservação e reservas extrativistas.


As condições objetivas para a defesa do meio ambiente, por tanto, estão na linha de frente dos principais ataques. Mas é preciso também atacar as condições subjetivas que sustentam o modelo atual de desenvolvimento; é preciso, como disse Martín-Baró, atuar no sentido da desideologização das maiorias populares, como forma de contribuir para a construção da democracia, mas também para uma consciência histórica de nosso papel para a preservação da humanidade.


Se não quisermos perecer às nossas custas, é necessário transformar pela raiz os problemas que enfrentamos. Cabe à psicologia, neste sentido, atuar na direção de visibilizar as causas destes problemas. De mostrar que, por detrás das fortes chuvas, das enchentes e dos alagamentos, existem a ânsia pelo lucro, a exploração de bases naturais e a destruição do meio ambiente sustentadas pela concorrência, pelo individualismo e pela meritocracia, valores tão caros ao neoliberalismo.


A prevenção às situações de emergências e desastres envolve, sem dúvidas, a gestão integral dos riscos, a construção de planos de segurança e a implementação de uma política de direitos das populações atingidas, mas envolve também apontar os culpados pelas catástrofes, responsabilizá-los e mostrar os interesses que estão por trás das calamidades, ou seja, quem ganha com o sofrimento dos afetados. Mas também, é fundamental que seja questionado o sujeito que o mundo contemporâneo produz.


Quando se fala de ansiedade climática, os especialistas se referem à frequência de pessoas e populações no mundo que sofrem antecipadamente as consequências de eventos como os que estamos presenciando, seja porque já passaram por situações semelhantes, seja porque temem que lhes ocorra o que viram ocorrer com outrem. Os níveis de estresse, ansiedade e traumas psicológicos duradouros crescem no mundo acompanhando o aumento das temperaturas.


Se é tarefa da psicologia intervir neste campo como consequência da crise climática, também é seu dever intervir em suas causas. Já superamos a visão de uma psicologia elitista; hoje em dia, a psicologia atua cada vez aliada às causas populares, mas ela precisa também atuar aliada às causas globais. Neste sentido, é imprescindível, à psicologia, transitar de uma atuação pautada nas situações de emergências e desastres, para uma atuação junto às populações atingidas, associada às lutas dos movimentos sociais e populares pelos direitos destas populações.


Reforçamos, portanto, a importância das(os) profissionais de psicologia se somarem às ações de solidariedade e atendimento voluntário às vítimas no Rio Grande do Sul, mas convocamos, também, o conjunto de nossa categoria, a contribuir na crítica para transformar as estruturas injustas, desiguais e violentas que sustentam este modelo de sociedade que produz os atingidos e as violações de seus direitos.




*Psicólogo (CRP-10/7512). Coordenador técnico do CRP-10 e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA.

**Psicóloga (CRP-10/1135). Presidenta do CRP-10 e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA.   

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